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Apresentado a

4 de março de 2010

RETICÊNCIAS...

Aos tres anos fui morar com minha avó num bairro recém-iniciado. Tinha uma vasta área de chácaras onde brincávamos de circo. Aliás, éramos perfeitos atores circenses, mesmo por nos equilibrar, dependurar, escorregar em árvores, pedras, buracos, imitando as atrações que assistíamos (e eram poucas crianças que tinham o privilégio). Praia então, todas as férias e feriados desde os cinco anos de idade. Aprendi a surfar, virar cambalhota, plantar bananeira e por aí vai. Não largava a escola de jeito algum mesmo por adorar as atividades da educação física.Principalmente o tal do treinamento para polícia militar. Era idêntico os que faziam nos quartéis. Os jogos de queimada, randbal, vôlei de quadra e de praia eram como tônico debaixo do sol.
Eu tinha apenas 13 anos de idade quando sofri um acidente de carro que, aparentemente não havia apresentado graves consequências. Aos 19 anos, devido o peso dos seios (ia para n° 52-medida do Brasil) foi necessária uma cirurgia de redução mamária para que o peso não trouxesse maiores danos à coluna. Aos 21 anos sofri outro acidente de automóvel, este mais grave: Rolamos uma ribanceira de mais de 4 metros na Rodovia Fernão Dias quando em reforma do acostamento. O fusca amarelo havia tido seu tanque de gasolina cheio e seguimos viagem para MG, quando o carro saiu da pista para o acostamento e, na tentativa de levar o carro para a pista novamente, o fusca tombou rolando umas três vezes até cair com as rodas para cima e o cheiro da gasolina tomar conta do local.
A sensação de ser como frutas num liquidificador foi forte, mas sumindo aos poucos até que, não sei por quanto tempo perdi completamente a noção da vida. Somente ao ouvir muito de longe meu nome comecei a ter um sentimento de uma força me puxando para algum lugar. A voz que me chamava ia ficando mais alta até que percebi um clarão acima de minha cabeça e, sem mesmo saber onde iria dar me impulsionei ao encontro da luz. Era o lugar do vidro do lado direito no banco de trás do fusca. Saí, puxei minha amiga , abrimos o amontoado de ferro que era a porta da frente e, de debaixo do banco tiramos os meninos.
A essas alturas, a fazenda da qual o carro derrubou as toras de madeira da cerca já estava repleta com os trabalhadores locais. Eram aproximadamente 7h00 (sete horas) da manhã.
Como estávamos em 3 carros os colegas dos outros veículos ficaram decidindo o que fazer com o amontoado de ferro que ficara na fazenda.
Na estrada, o guarda rodoviário, muito comovido aliás, chorando, dizia: Filhos, ergam as mãos para o céu e agradeçam por estarem vivos pois eu estou acostumado a ver os acidentes e da forma que foi o de vocês era para terem morrido os quatro. Vocês nasceram de novo.
Ficou em minha boca um gosto de terra tão forte que parecia eu ser puro barro ou pó, sei lá, com alguns nervos sobrepostos. O gosto vinha de dentro de mim e só depois de subir na estrada comecei a dar conta de que eu havia saído de um lugar e voltado para ele.Cientificamente eu não sei explicar.
Fomos socorridos ao Hospital de Oliveiras-já em MG, andando até que próximo à porta do hospital comecei a sentir minhas pernas adormecerem. A enfermeira quis me colocar numa cadeira de rodas mas eu preferi ir andando até a maca, apoiada nos meninos.
Resumindo as consequencias: os meninos sairam ilesos. Minha amiga teve uma disjunção de costelas, precisando de faixas e eu....Fratura de coluna. Iriam me colocar um colete de Aço para poder voltar a São Paulo. Pedi para colocarem gesso pois aqui, no convênio, iriam executar todos os procedimentos novamente. Me imobilizaram e tive de voltar quase deitada.Isso três (03) dias depois.
Para quem não sabia se andaria ou não, 01 mês após eu já me apoiava na parede e em três já andava sem ter sido preciso o colete de aço. Sómente com o de gesso.
Segui para fisioterapia e com a recomendação de praticar exercícios, logo voltei à ativa, abandonando até o tratamento. Sempre me ocupei demais de atividades e me dedicava até exageradamente à escolas e trabalhos o que foi me fazendo "esquecer de mim".
Três anos depois comecei a ter a perna direita repuxada e indo à ortopedia foi constatada uma luxação de fêmur, congênita, não descoberta até aquela data. O fato de ter ficado imobilizada fez com que alguns problemas já existentes viessem à tona. O que me disseram foi de não ter nada a ver com o acidente.Era outra situação. Remédios e mais remédios, indicações de fisioterapia e retornos nunca nas datas solicitadas por não ter vaga nos ambulatórios. Melhor "se cuidar" nas piscinas, academias....Como se eu pudesse sair de horários de trabalho para essa "mordomia" .Era o que eu escutava. Cheguei a estar no Pronto Socorro aguardando um exame de urgência, tamanha a dor e o "travamento" de pernas e ao ligar para a chefia ouvi: Pois veja logo esse resultado e volte a trabalhar pois em 1(uma) hora você pode fazer muita coisa. Também, só fica doente....E assim fui me podando dos tratamentos.
Passados uns 4(quatro anos) me casei. Engravidei um mês depois e após os quase dez meses, nasceu meu filho. Fiquei numa internação social pois precisava esperar amadurecer seu pulmão. Já havia estado internada aos 6(seis) meses para segurar o bebê que parecia forçar as paredes do quadril para sair. O parto foi cesárea e a recuperação rápida não sem muita dor na perna direita. Aquela perna da tal luxação. Engordei 24 quilos nesta gestação, a maior parte, água, mas o peso adquirido fez com que dali em diante qualquer coisa parecia ser três vezes mais que o habitual. Mesmo assim, eu atribuia o "cansaço" e dores ao cotidiano, nunca ao acidente. Quase dois anos depois, engravidei e engordei novamente 24 quilos, a maior parte, água. Parto cesárea, também, mas o bebê nasceu de bolsa rota e sofrimento fetal (passou do tempo) porque como o primeiro, fiquei internada aos 6 meses de gestação para segurar o bebê. Na data do parto, eu não tinha força nem movimentação suficiente para expulsar o bebê. Havia perdido o líquido e não entrei em trabalho de parto.
A correria com as crianças, o trabalho exagerado, o excesso de estudos fora de casa, a casa para limpar após o expediente, a fuga dos problemas no matrimônio, tudo fizeram com que eu perdesse rapidamente o peso ganho mas as dores foram se intensificando. De vez em quando retornava à piscina ou começava alguma atividade mas as exigências nos horários de trabalho, na presença nos setores, o medo de perder cargo, benefícios, ficar sem as extras para ajudar na despesa(à essas alturas eu já estava separada) além de ter que aprender a assentar piso, pregar lambris, fazer encanamentos, instalações.... Lógico que eu tinha muito orgulho em driblar a situação onde eu vivia sendo humilhada e tratada como incompetente como esposa mas meu orgulho próprio me fez querer ser o que não nasci para isso. Minha estrutura feminina (e sem preparação muscular) não era para certos exageros e eu fazia de tudo para não ser pesada a ninguém.
Orgulho-me em dizer que as crianças cresceram estudando, trabalhando, e eu vejo hoje a recompensa de meu esforço pelos pães, doces , brinquedos e tratamentos e estudos que não deixei faltar. Somos sinceros, amorosos e fiéis uns aos outros mas, somente há pouco tempo atrás, aproximadamente 04(quatro) anos, comecei a sentir o reflexo dos muitos tombos que tomei sem mesmo estar correndo, as dores que enfrentei à custa de remédios para não precisar repousar, a falta de me preocupar com alimentação adequada nos momentos de crises, e outras coisas mais.
Aos aproximados 04(quatro) anos citados, tomei um tombo na madrugada, quando sem enxergar uma bicicleta no chão, enfiei os pés na roda traseira e cai com todo o peso do corpo em cima do guidão. O braço direito só era levantado se erguido e durante 40(quarenta) dias fiquei esperando melhorar.
As tensões que passei (todas no mesmo tempo) foram se acumulando. Era problema em casa, pressão no trabalho, dor, tudo comprimindo a musculatura do pescoço aos ombros. Eu virava a cabeça para os lados como se vê nos filmes quando alguém está estressado, e pensava: É estresse, vai passar.... Mas, num daqueles belos dias em que não se tem vontade de sair de casa mas precisa-se sair, tive uma sensação de desmaio seguida de uma forte dor de cabeça. O pescoço parecia estar destroncado. Difícil segurar. Parei numa UBS. Para variar, lotada. Me colocaram na cadeira para tomar sôro com medicação. Logo vieram me tirar o suporte pois havia poucos e eu tive de colocar o braço apoiado nos joelhos. Ao abaixar a cabeça comecei a ver tudo embaçado. Pedi para me colocarem na maca mas não era autorizado. Liguei para a Coordenação de Saúde e ordenaram que o fizesse. O médico que me atendia achou um absurdo, dizia que eu não podia ter preferências. Eu disse bem alto (já que não me perguntaram) que eu tinha alergia a determinados medicamentos . Ouvi alguém dizendo para me aplicar um medicamento que tinha justamente a composição alérgica. Não deu outra: Fui perceber minha existência na sala de eletrocardio. Me transferiram ao convênio após certa "briga" de uma amiga minha que me acompanhava. Ao menos eu fui. Tremia da cabeça aos pés. A nuca parecia que ia estourar. Um frio sem explicação,dentro dos ossos.Não enxergava nada. Só ouvia o que falavam: Será AVC? Vamos aguardar o médico chefe. Medicada e bem atendida até o momento de chegar uma emergência. Daí acho que dormi. Acordei no corredor onde fiquei por três dias por não haver vaga nos quartos. Diagnosticaram "piripaque"-DNV. Chegaram até a exclamar o porque de a UBS ter me mandado para lá.Tão longe. Ficassem comigo por lá.
Alta. Fiz um relatório reclamando o porque de não terem me internado já que sou titular do convênio e não pediram nenhum exame extra.
Quinze dias depois, outra crise. Me internaram. Fizeram vários exames. A neurologia não achava nada. Alta. Sistema emocional. Caramba, se eu reclamava de não conseguir erguer a perna (a direita, sempre) e citava o acidente, pedia para me encaminharem para a ortopedia. Nada.
O ortopedista que operou meu filho entrou no quarto para atender a paciente ao lado. Falei com ele e após a alta, me conseguiu uma consulta, pediu exames e enfim a constatação: Duas hérnias cervicais quase estourando. Cirurgia.
Os tombos continuaram e, com aproximadamente 20 dias de cirurgia um tombo estilo skate, escorreguei no sabão no chão do hospital onde visitava um parente. Radiografias da bacia e pescoço não apontaram nada mas a dor ficou. O outro tombo foi mais leve mas bati a cabeça sobre um bloco de cimento. No retorno a radiografia não apontava nada. Com o sem acompanhamento, agora mais consciente, APRENDI A FALAR COM OS MÉDICOS, DIZER OU GRITAR ONDE DOÍA, QUESTIONAR O DIAGNÓSTICO, PROCURAR INFORMAÇÕES EM OUTROS LOCAIS.....
Choques nos dois pés, braço direito sem força sequer de segurar um garfo e um belo torção no joelho direito sem motivo aparente, As dores numa viagem de quatro a sete horas diárias para chegar no trabalho por aproximadamente um ano aguardando a transferência, me foram suficientes para procurar o pronto socorro e pedir exatamente o que precisava: SOCORRO!
Conheci legislação específica que autoriza a transferênciapara próximo da residência. E com a atenção e prestatividade da clínica de ortopedia do Hospital, chegamos às constatações:
Duas hérnias lombo-sacras que não podem ser operadas, uma fratura supostamente calcificada, escoliose, artrose nos dois joelhos, lesão nos tendões das duas pernas, um parafuso da cirurgia escapando, encaminhamentos à fisioterapia, pedidos de exames específicos como eletroneuromiografia, densitometria óssea(osteopenia?), exigência de hidroginástica, acompanhamento em academia, orientações sobre "se gostar, se cuidar" se virar, emagrecer...
Foram 23 anos de sintomas, conhecimentos, dores e cansaços. Ainda não sei quantos levarei.
Quando soube que os movimentos que perdi não voltarão e terei que me adaptar com a ausência, acredito no fato de ter o direito de estar decepcionada com a vida em alguns momentos mas, é exatamente em tais momentos que enxergamos a grande variedade de atividades que se pode fazer para se sentir útil, conhecemos quantas pessoas possuem limitações maiores e não se importam com as discriminações, que são muitas, quantas pessoas são felizes sendo como são ou como estão.(Eu ainda ando, por enquanto)
Para fugir de tanto "vento" nos ouvidos, por necessidade na minha carreira, comecei a estudar Libras e vi o quanto é importante um diagnóstico correto, uma dedicação profissional, o amor da família, a força no portador da deficiência, a vontade de viver!!!! E é essa, VONTADE DE VIVER! ensinar um pouco a quem está aprendendo a viver!
Ensinar a verem através da aparência.
Como é importante que a vida não tenha um ponto final ,mas tenha sempre, e sempre, RETICÊNCIAS.....



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